Nascer no tempo certo

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Um hormônio da placenta determinaria a hora do nascimento. Além de ser uma arma para evitar partos prematuros, sua descoberta acende a polêmica sobre as cesarianas.Entre a fecundação do óvulo pelo espermatozóide e o parto se passam, normalmente, 40 semanas. É o tempo necessário para o organismo ficar maduro e preparado para enfrentar o mundo fora da barriga materna. Mas muitas vezes esse período é abreviado, sem nenhuma razão aparente. "Em metade das situações não se sabem as causas que levam um bebê a nascer prematuro", estima o obstetra João Luiz Carvalho Pinto e Silva, da Universidade de Campinas, no interior de São Paulo.

A teoria mais recente está sendo proposta por uma equipe de pesquisadores australianos. Sob o comando do endocrinologista Roger Smith, da Universidade de Newcastle, eles estão estudando a fundo a função de um hormônio ainda pouco compreendido, liberado pela placenta. Trata-se do CRH, sigla para o quase impronunciável nome inglês corticotropin-releasing hormone. "Mulheres com altos níveis dessa substância estão mais sujeitas a dar à luz antes da hora", garante Smith.

Relógio placentário:

Roger Smith e sua equipe estudaram o comportamento do CRH em 485 grávidas. Eles coletaram amostras de sangue materno entre a 16a e a 20a semana de gestação. E notaram que, quanto mais elevada a quantidade do hormônio nesse período, maiores as chances de a gravidez se encerrar antes do prazo normal.O fenômeno do CRH foi descrito pelos próprios cientistas como um "relógio placentário". Ele marcaria a duração da gravidez, sendo a gota capaz de disparar uma cascata hormonal , uma intrincada sucessão de processos bioquímicos que vai culminar no parto.

O final da cascata:

O hormônio progesterona, fabricado pelos ovários, é o grande responsável pela manutenção da gravidez. Não é à toa que seu nome significa pró-gestação. O CRH, porém, promoveria a queda das taxas dessa substância, permitindo o aumento de outras, capazes de provocar as contrações uterinas.Atualmente, o grande desafio dos cientistas é descobrir por que algumas mulheres têm níveis maiores de CRH. "Para isso precisamos estudar o gene ligado ao hormônio e entender os fatores que aumentam a atividade dele", afirma Smith. "É no que estamos nos concentrando agora."

Essas revelações dão o que pensar. "A existência de algum hormônio que agisse dessa maneira sempre foi intuída, mas nunca havia sido provada como esse grupo de pesquisadores está fazendo", avalia Pinto e Silva. Na prática, hoje, surge a possibilidade de investigar o CRH das mulheres grávidas. "Assim poderemos identificar aquelas com grandes chances de ter um bebê prematuro", acredita Smith. Isso é importante: sabendo que a paciente faz parte de um grupo de risco, o obstetra pode  e , deve , tomar cuidados especiais, como o de encaminhá-la para um hospital em que exista um bom atendimento a crianças nascidas antes dos 9 meses de praxe.

O maior problema que um bebê prematuro vai enfrentar é a dificuldade para respirar. "O pulmão é o último órgão a ficar maduro, o que só ocorre a partir da 38ª semana de gestação", justifica o obstetra Sérgio Martins Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mas agora a situação é bem mais favorável a essas crianças do que antes. "Há uns 30 anos, era quase certa a morte de um recém-nascido com menos de 1 quilo e meio", lembra-se Costa. "Hoje sabemos que ele pode sobreviver sem nenhuma seqüela neurológica."

Na maioria dos partos prematuros com causas conhecidas, o que está por trás da gestação abreviada são infecções urinárias e ginecológicas. As cesarianas pré-marcadas têm sido outra razão. "Não são raros os erros de avaliação feitos pelos médicos que agendam cirurgias antes da hora", diz Costa. "Isso acontece pela mania de fazer cesariana em todo mundo."

Medo da dor:

Há cerca de dois meses, a universitária paulista Rosa Maria de Oliveira Gatti, de 31 anos, engordou as estatísticas de cesarianas no Brasil — país com a triste marca de ser um dos campeões na realização dessa cirurgia. Na rede pública, 28,7% dos partos são feitos com a ajuda do bisturi. A média, levando em conta os hospitais privados, chega a 40% dos partos. No caso de Rosa, porém, não havia escolha: seu bebê, hoje com 2 meses, tinha 4 quilos e 15 gramas distribuídos por 51 centímetros. Não teria condições de passar pelo canal da vagina. O motivo da operação, portanto, era mais do que justo. No entanto, a universitária teme as dores do parto normal. Tanto assim que repetiria a dose do bisturi: "Se eu tiver outro filho, vou fazer cesariana de novo", afirma.

Mas, talvez, Rosa ignore que na cesariana as chances de morte da mãe são sete vezes maiores do que no parto normal. Sem contar que sempre é possível lançar mão da anestesia, mesmo quando o bebê não sai por um corte na barriga.Existem mulheres, no entanto, que não abrem mão do parto normal. A relações-públicas gaúcha Márcia Barcelos Silva, de 37 anos, faz parte desse time. Foi assim o nascimento de sua filha, Patrícia, hoje com 6 anos. "A recuperação de uma cesariana é muito mais difícil", opina. De fato. Uma mulher submetida a um parto cirúrgico sai do hospital 72 horas depois. Se for parto normal, a nova mamãe volta para casa na metade do tempo. E as chances de ter complicações é muito menor.

Só pra quem precisa:

Agora Márcia deve repetir a experiência. Camila, sua segunda filha, está para nascer. "No parto da Patrícia, eu não fui anestesiada, mas não achei a dor absurda", diz.As indicações para preferir uma cesariana são bastante claras e levam em consideração os riscos de um parto normal. "A cirurgia deve ser feita quando há sofrimento do bebê", afirma Silva. Isso pode ocorrer por alterações nas contrações, hipertensão da mãe, trabalho de parto muito prolongado e até incompatibilidade entre o tamanho da criança e a bacia da mulher.

Mas, tirando essas situações, é melhor pensar duas, três, dez vezes antes de apelar para o bisturi. Um argumento a favor da cesariana é a famosa bexiga caída , por estender demais os músculos da região, o parto normal tornaria mais frágil a sustentação desse órgão. Mas isso está sendo questionado. Alguns trabalhos sugerem que a bexiga caída ocorre não por causa do parto normal, mas pela gravidez em si  e , só em quem tem tendência.

Fonte: Revista Saúde

www.portaldocoracao.com.br  

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