Especialista explica como é feita a troca da válvula aórtica por cateterismo cardíaco

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Albert Einstein e Pró-Cardíaco realizam parceria para o tratamento da estenose aórtica

Com o crescimento contínuo da expectativa de vida do brasileiro, tratamentos específicos para o atendimento de doenças comuns ao aumento da longevidade são fundamentais. Segundo dados publicados pelo IBGE no mês de dezembro, a expectativa de vida do brasileiro aumentou cerca de cinco anos, de 1991 até 2008, alcançando em média 72,7 anos. Tal realidade tem impulsionado novas iniciativas para o atendimento dessa demanda.

Em colaboração com um grupo de pesquisadores alemães, o Hospital Albert Einstein implantou no Brasil, de forma pioneira, um método, já bastante utilizado em países da Europa, que permite a troca da válvula aórtica através de cateterismo cardíaco, por via percutânea, um procedimento menos invasivo que substitui a necessidade de cirurgia.

 Essa nova opção de tratamento é fundamental para cerca de 50% dos idosos, com grave estenose aórtica, que estão impossibilitados de realizar a troca da válvula aórtica devido ao risco elevado de complicações durante o ato operatório. Essa doença é, atualmente, uma das cardiopatias mais comuns em idosos.

A técnica já começou a ser utilizada em São Paulo e, em breve, chegará ao Rio de Janeiro através de uma parceria, realizada entre o Hospital Albert Einstein e o Pró-Cardíaco, que tem como principal objetivo a troca de conhecimentos e experiências inovadoras. Essa parceria entre as duas instituições hospitalares motivou a visita do Dr. Fábio Sândoli, médico-cardiologista do setor de hemodinâmica do Albert Einstein, ao Pró-Cardíaco, em dezembro de 2008.

Na Sessão Clínica, realizada sempre às quartas-feiras no Centro de Estudos do Hospital Pró-Cardíaco, Dr. Fábio apresentou as últimas novidades para o tratamento da estenose aórtica, doença causada pela calcificação da válvula aórtica. Como a estenose obstrui a passagem de sangue do coração, esse estreitamento compromete o bombeamento diminuindo a quantidade de sangue liberada pelo coração ao organismo.

Durante a apresentação, Dr. Fábio Sândoli debateu com cardiologistas e cirurgiões cardíacos do Rio de Janeiro os resultados iniciais do novo método, realizado com sucesso em seis pacientes no Hospital Albert Einstein, sendo que um deles foi encaminhado pelo Pró-Cardíaco.

Leia entrevista com o Dr. Fábio Sândoli, na íntegra:

Pró-Cardíaco: O que é a calcificação da válvula aórtica?

Dr. Fábio Sândoli: A calcificação da válvula aórtica é uma doença degenerativa da idade. Conforme a pessoa vai envelhecendo, a válvula do coração vai envelhecendo também. Não é só a calcificação, ela vai ficando fibrótica, como se fosse cicatriz na válvula aórtica junto com a calcificação e isso faz com que ela entupa. Ela vai entupindo e não deixa que o sangue passe livremente através da válvula, então causa a doença, comum em idosos, que se chama estenose da válvula aórtica – estreitamento da válvula pelo cálcio e por essa fibrose que se forma na válvula ao longo dos anos.

Pró-Cardíaco: Qual a porcentagem de resultados positivos, com a implantação da válvula aórtica através de cateterismo cardíaco – por via percutânea – nos diversos estratos da população brasileira e na comunidade internacional?

Dr. Fábio Sândoli: Na comunidade internacional, já existem mais de 5.000 casos feitos, principalmente em centros da Europa, com taxas de sucesso – e sucesso significa conseguir colocar a prótese e a prótese funcionar bem no coração da pessoa – em torno de 90%, mas isso em países da Europa, Estados Unidos, Canadá e também aqui no Brasil. Nos seis casos que realizamos no Einstein, todos tiveram sucesso, são seis casos. Importante é que a gente saiba que essa taxa de sucesso se consegue numa população de pacientes selecionados, pois não é qualquer indivíduo que pode fazer, é um grupo de pacientes apropriado para esse tipo de intervenção, com maior chance de se dar bem com o procedimento. Por isso, a taxa de sucesso é tão alta para esse tipo de intervenção. Na Europa, que tem muitos casos feitos e experiência de alguns anos, há uma média de 90 a 95% de sucesso. E aqui no Brasil, há seis casos feitos, e os seis foram bem-sucedidos.

Pró-Cardíaco: E como é a recuperação desses pacientes em comparação com o ato cirúrgico?

Dr. Fábio Sândoli: O tratamento cirúrgico de pacientes com alto risco cirúrgico é complexo porque eles têm idade avançada e junto com a idade avançada vem uma série de outras doenças, conhecidas também como comorbidades, doenças pulmonares, renais, cirurgias prévias, etc. Quando é realizada uma cirurgia cardíaca em pacientes que têm em média 80 anos, ou com idade até mais avançada que isso, a recuperação é muito demorada, pois são necessários muitos dias de U.T.I., muitos dias de internação hospitalar e, por ser um procedimento muito grande, os pacientes se sentem deprimidos. A recuperação é muito demorada e, às vezes, os pacientes nessa faixa etária não têm condições clínicas nem tempo para que essa recuperação se faça de forma completa. Então, o implante da válvula aórtica por via percutânea torna possível que o paciente faça o procedimento só com uma sedação, sem anestesia geral, e que alguns dias após o procedimento, ele já esteja em casa na atividade normal da vida dele.

Pró-Cardíaco: Há redução de mortes com a utilização desse novo procedimento?

Dr. Fábio Sândoli: Com o tratamento cirúrgico tradicional, a gente sabe que trocar uma válvula aórtica entupida ou estenosada aumenta o tempo de vida, diminuindo a mortalidade dos pacientes. Com esse novo tipo de procedimento, acredita-se que também haverá aumento do tempo de vida desses pacientes, embora o objetivo principal seja oferecer uma qualidade de vida melhor nos anos que ele vai viver, pois são pacientes com idade avançada e tão importante como aumentar o tempo de vida é aumentar a qualidade de vida.

Pró-Cardíaco: O tempo de internação é reduzido?

Dr. Fábio Sândoli: Com certeza, o tempo de internação é muito reduzido. Quando é feita a substituição cirúrgica da válvula aórtica em um paciente octagenário, dificilmente ele fica menos de uma semana a 10 dias internado, nos casos que vão bem, sem complicações, porque nessa faixa etária a chance de ter uma complicação é muito grande. Enquanto que para um paciente que faz a substituição da válvula aórtica por via percutânea, a média de internação é de três a quatro dias, então há uma redução do tempo de internação, com certeza.

Pró-Cardíaco: Qual o custo da prótese utilizada nesse novo procedimento?

Dr. Fábio Sândoli: Essa prótese custa em torno de U$ 35.000,00.

Pró-Cardíaco: Os gastos hospitalares diminuem?

Dr. Fábio Sândoli: Os gastos hospitalares já têm um custo estabelecido com o tratamento cirúrgico e esse é um tratamento novo que está sendo introduzido agora e a prótese, o dispositivo que é usado, ainda é muito cara. Então, a redução dos gastos nessa fase inicial não é tão grande porque o dispositivo ainda tem um custo muito elevado. Mas, ao longo dos anos, com a ampliação das indicações, mais uso, o custo vai caindo e isso se torna um procedimento rotineiro. Isso acontece com toda tecnologia que está sendo implantada. E com a diminuição do tempo e da reincidência de internações, já há uma redução significativa de custos hospitalares também.

Pró-Cardíaco: E quanto à cobertura do novo procedimento pelos planos de saúde?

Dr. Fábio Sândoli: Em todos os casos em que houve cobertura dos planos de saúde, isso aconteceu mediante muitas explicações junto aos convênios. Eles têm muita dificuldade de entender isso, mas é um procedimento que visa além de aumentar o tempo de vida, ampliar a qualidade de vida desses indivíduos.

Pró-Cardíaco: Há possibilidade de incorporação desse procedimento pelo SUS?

Dr. Fábio Sândoli: Eu não tenho dúvidas que isso vai acontecer em um futuro próximo, assim que houver ampliação das indicações, inclusive existe uma tentativa de se desenvolver próteses semelhantes a essa no Brasil.

Fonte:MS Comunicação(2009).

www.portaldocoracao.com.br 

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