Comunicação interatrial (CIA)

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A comunicação interatrial (CIA) é uma das cardiopatias congênitas, ou seja, presente desde o nascimento, mais comumente reconhecida na vida adulta. A comunicação interatrial é caracterizada por um defeito no septo interatrial, uma estrutura que separa os átrios, que são as câmaras cardíacas menores e superiores do coração.

O sangue venoso pobre em oxigênio chega ao coração pelo átrio direito, passa pela válvula tricúspide e atinge o ventrículo direito. Em seguida, o sangue é ejetado em direção à circulação pulmonar para ser oxigenado.

A comunicação interatrial permite que o sangue passe do átrio esquerdo para o átrio direito. O regime de pressão no lado esquerdo é maior, por isso, o sangue desloca-se da área de maior pressão (lado esquerdo) para a área de menor pressão (lado direito).

Dependendo do tamanho do defeito, do volume de sangue que passa do átrio esquerdo para o átrio direito, e das anomalias associadas, isso pode resultar em uma sobrecarga de volume de sangue no lado direito do coração, aumentando a pressão na circulação pulmonar (hipertensão pulmonar), pois esta recebe o “sangue extra” proveniente do lado esquerdo do coração. As câmaras direitas (átrio e ventrículo) podem ficar dilatadas.

Em portadores de comunicação interatrial, os achados sutis do exame físico e sintomas mínimos durante as primeiras 2 ou 3 décadas de vida contribuem para um atraso no diagnóstico até a idade adulta. A maioria (mais de 70%) dos casos são detectados na quinta década de vida. A ampla utilização do ecocardiograma, exame que avalia as estruturas do coração por meio de ondas de ultrassom, permitiu um aumento do número de diagnósticos mais precoces de comunicação interatrial.

Tipos

A comunicação interatrial é uma cardiopatia congênita causada pela malformação espontânea do septo interatrial, estrutura que separa os átrios, que são as câmaras cardíacas menores e superiores do coração. Tipos de comunicação interatrial:

-Comunicação interatrial tipo ostium secundum:

É tipo mais comum, sendo responsável por 75% de todos os casos de comunicação interatrial, representando aproximadamente 7% de todos as cardiopatias congênitas e 30% a 40% das cardiopatias congênitas em pacientes com mais de 40 anos.

-Comunicação interatrial tipo ostium primum:

É o segundo tipo mais comum, responsável por 15-20% de todos os casos. É uma forma de defeito do septo atrioventricular e está comumente associado a anormalidades da valva mitral.

-Comunicação interatrial tipo seio venoso.

Esse tipo é responsável por 5 a 10% de todos os casos de comunicação interatrial. O defeito está localizado ao longo parte superior do septo atrial. A conexão anômala das veias pulmonares direitas é comum e deve ser esperada. Imagens alternativas do coração, através da ressonância magnética, por exemplo, são geralmente necessárias.

-Comunicação interatrial  tipo seio coronário.

É o tipo mais incomum de comunicação interatrial.

Sinas e sintomas

A comunicação interatrial ocorre numa proporção de duas mulheres para cada homem. Pacientes com comunicação interatrial podem ser assintomáticos durante a infância e adolescência, embora o tempo de apresentação clínica dependa do grau do volume de sangue que passa do lado esquerdo do coração para o lado direito.

Os sintomas se tornam mais comuns com o avançar da idade. Aos 40 anos, 90% dos pacientes não tratados apresentam sintomas de dispneia aos esforços (falta de ar), fadiga, palpitação (percepção anormal dos batimentos cardíacos), arritmias sustentadas (originadas nos átrios, como a fibrilação atrial, flutter atrial e taquicardia atrial) ou até mesmo evidências de insuficiência cardíaca (coração fraco) do lado direito do coração.

Ao exame físico, pode-se encontrar sopro sistólico no foco de ausculta pulmonar, sopro diastólico no foco tricúspide (em caso de comunicação interatrial grande), e desdobramento fixo da segunda bulha.

Diagnóstico

O eletrocardiograma pode revelar uma perturbação da condução do ramo direito até bloqueio completo do ramo direito, sobrecarga atrial direita e sobrecarga ventricular direita. A radiografia do tórax pode demonstrar aumento das câmaras direitas, abaulamento do tronco da artéria pulmonar e rede vascular pulmonar aumentada nos casos que apresentam hipertensão pulmonar significativa.

O ecocardiograma transtorácico (feito com o transdutor posicionado na parede do tórax) pode mostrar sinais de hipertensão pulmonar, aumento do átrio e movimento paradoxal do septo interatrial, sem demonstrar diretamente a comunicação interatrial ou o tipo de comunicação interatrial.

O ecocardiograma transesofágico (feito com o transdutor posicionado no esôfago) é o principal método de imagem utilizado para confirmar o tipo de comunicação interatrial em pacientes com dificuldade de janela no ecocardiograma transtorácico.

A ressonância cardíaca também pode ser solicitada em alguns casos de comunicação interatrial, como o tipo seio venoso. Uma grande vantagem do exame é a capacidade de quantificar o tamanho, volume e função do ventrículo direito.

Tratamento

A comunicação interatrial é uma doença que pode ser tratada cirurgicamente ou por meio de cateterismo intervencionista. No entanto, pacientes com sobrecarga significativa de volume ou arritmias originadas nos átrios podem necessitar de terapia medicamentosa específica.

-Cirurgia

Em geral, o fechamento da comunicação interatrial é recomendado para todos os casos com evidência de sobrecarga ventricular direita ou com uma passagem clinicamente significativa de sangue do lado direito para o lado esquerdo do coração. A falta de sintomas não é uma contraindicação para o reparo. Os tipos seio venoso, seio coronário ou ostium primum devem ser reparados cirurgicamente.

-Tratamento por cateter

Nos últimos tempos, os casos de comunicação interatrial tipo ostium secundum foram fechados usando uma variedade de dispositivos de oclusão implantados por cateter, em vez do fechamento cirúrgico direto. Estes dispositivos são colocados através de uma abordagem veia femoral (por meio de um cateter introduzido na virilha) e são implantados como um guarda-chuva para fechar o defeito do septo interatrial. Esses dispositivos funcionam melhor para defeitos do tipo ostium secundum localizados centralmente.

O fechamento da comunicação interatrial está contraindicado em orifícios pequenos que não causam repercussão ou, em outro extremo, em casos de hipertensão pulmonar severa e irreversível, pois além do alto risco cirúrgico, o fechamento do defeito pode piorar a evolução desses pacientes.

A síndrome de Eisenmenger resulta de diferentes defeitos cardíacos congênitos, entre eles a comunicação interatrial, que causam aumento na resistência vascular pulmonar e hipertensão pulmonar severa, o que resulta na inversão do curto circuito (o sangue que passava do lado esquerdo para o lado direito, passa também a circular do lado direito para o esquerdo) ou nos dois sentidos (bidirecional).

Autor: Dr. Tufi Dippe Jr – Cardiologista de Curitiba – CRM/PR 13700.

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